O aquecimento global não é só um número no termômetro. Neste ano, ele apareceu de forma concreta em dois lugares que sustentam a vida cotidiana de qualquer país: o hospital e a plantação. De um lado, sistemas de saúde sobrecarregados por semanas seguidas de calor extremo. Do outro, safras inteiras perdidas para a seca — com efeito direto no preço da comida.
O corpo sob pressão
Em junho de 2026, uma onda de calor histórica varreu a Europa Ocidental e depois avançou para o leste do continente. A Bélgica registrou um aumento de 39% na mortalidade em pouco mais de uma semana — cerca de 1.200 mortes a mais do que o esperado no período, o maior salto diário desde o início da pandemia de covid-19, segundo as autoridades do país. Nos Países Baixos, foram cerca de 480 mortes adicionais na mesma semana, concentradas em idosos acima de 80 anos.
Na Espanha, o instituto de saúde Carlos III contabilizou mais de mil mortes ligadas ao calor — mais do que o dobro do registrado no mesmo mês de 2025. Na França, boletins médicos apontaram cerca de mil mortes em apenas três dias, a maioria de pessoas com mais de 65 anos. Hospitais relataram corredores lotados de pacientes com hipertermia, desidratação e agravamento de doenças cardíacas e respiratórias — em alguns casos, ambulâncias não davam conta da demanda.
O padrão se repetiu fora da Europa: cidades como Nova Délhi, na Índia, viram hospitais registrarem picos de internações por insolação durante ondas de calor no mesmo período. Para especialistas ouvidos pela imprensa europeia, o episódio deveria funcionar como alerta também para países como o Brasil, onde a infraestrutura de saúde pública ainda não trata o calor extremo como uma emergência a ser planejada com antecedência.
A lavoura que não resiste
Enquanto os hospitais lidavam com o calor, o mesmo fenômeno atingia direto a produção de alimentos. A seca de 2026 na Europa levou a França a colher a pior safra de milho em 50 anos, enquanto a Romênia perdeu mais de um milhão de hectares da mesma cultura, segundo levantamento da iniciativa científica World Weather Attribution. No leste do continente, agricultores de Chéquia, Eslováquia e Hungria relataram perdas de até 40% em suas colheitas neste ano, por causa da primavera mais seca já registrada na região.
Fora da Europa, o quadro se repete de outra forma: entre janeiro e abril de 2026, incêndios já haviam queimado 85 milhões de hectares na África — 23% a mais que o recorde anterior — segundo o grupo científico World Weather Attribution. Na África do Sul, autoridades classificaram a temporada de incêndios de 2025-2026 como a mais severa em uma década, atingindo até destinos turísticos como Mossel Bay e Franschhoek. Na Espanha, a seca prolongada já havia derrubado a produção de azeite pela metade nos anos anteriores, dobrando o preço do produto no mercado interno.
No Brasil, o mesmo roteiro aparece na crise hídrica do Pantanal, já tratada na seção acima — e reforça um padrão que se repete em todos os continentes: quando falta chuva, quem sente primeiro é quem planta e quem cuida de quem adoece.